"Tenho defendido, em vários dos meus textos, que todo o grupo
social tem duas culturas: a do adulto e a da infância. O pensamento do
adulto está formado, desenvolvido e sabe que, ao falar ou agir, define
uma interacção. O pensamento da infância está em formação e explora
as várias alternativas para entender a realidade da mencionada
interacção, da qual faz parte. O pensamento e agir da infância é uma
experimentação permanente, tendo em vista a definição dos seus próprios
conceitos e o entendimento dos usados na interacção.
Especialmente, por existir uma contradição, na vida adulta, entre o que
se ouve que deve ser feito e o que se vê fazer."
"Depois de anos de pesquisa etnográfica em etnias, bairros e aldeias
parece-me evidente que toda a sociedade está composta por estes grupos
que se inter-relacionam: os mais novos que começam a aprender os
hábitos dos mais velhos; os mais velhos que organizam a reprodução; e
os eruditos locais, isolados e afastados do quotidiano popular, que vão
acumulando palavras e ideias dos cientistas longínquos, às palavras e
ideias que, conjunturalmente, se definem como as mais importantes para
manter o grupo dentro da História."