O Cultivo de Flores de Plástico

de Afonso Cruz 

Bertrand.pt - O Cultivo de Flores de Plástico
Opinião dos livreiros
(1)
Editor: Companhia das Letras
Edição: novembro de 2023
Formatos Disponíveis:
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Lili ocupa o tempo de sobra a experimentar chaves em portas. O couraçado Korzhev dobra e desdobra mapas e carrega no bolso conchas que lhe devolvem a maresia. A senhora de fato suspira pelo tempo em que vivia uma vida alcatifada, com dois carros, um cão e um gato. Jorge sabe que bastou um passo em falso para ir parar ali. É o que separa as pessoas que vivem em casas das pessoas que vivem na rua: um passo mal dado.

Num texto belíssimo, pleno de dor e ironia, Afonso Cruz imagina as vidas de um grupo de pessoas que vive debaixo do mau tempo, abaixo da linha mínima da dignidade e conforto que deveria caber a cada pessoa. O Cultivo de Flores de Plástico é um apelo para que olhemos para os seres invisíveis das nossas cidades.

Excertos
«No fundo, é isso. Ninguém nos vê. Somos invisíveis. A miséria é uma poção de invisibilidade. Quando as roupas ficam rotas, quando estendemos uma mão, puf, desaparecemos. Somos as pombas dos ilusionistas. Isto dava para um negócio, dava para ganhar a vida com os turistas. Levava-os a ver fantasmas numa cidade assombrada. Levava-os a verem-nos. Olhem, damas e cavalheiros, meninos e meninas, esta é a Lili, tem saudades de ser criança, tem no nariz o cheiro do tabaco nos dedos do pai e crostas nos braços, por aqui, por favor, cuidado com os pés, não pisem as camas, parecem cartões, eu sei, ali ao canto está o couraçado Korzhev, que se deixou ficar, com os ícones na lapela, sigam-me, é um deserto meio russo e traz o barulho do mar nos bolsos, atenção, cavalheiro, saia de cima do cobertor, vejam, ali, ali ao fundo, uma genuína senhora de fato, que ainda há poucos meses andava a alcatifar o mundo, minhas senhoras e meus senhores, e ainda tem na voz restos da vida anterior, do tempo em que havia casas. Palmas, por favor. E eu? Eu sou o Jorge, também invisível como qualquer fantasma, vivo nas ruas. Obrigado, obrigado, e agora, se me permitem, vou comer a minha sopa, que está a arrefecer há tantos anos.»

  • A plasticidade da vida…
    Nuno Rodrigues, Livreiro Bertrand Chiado | 27-02-2024

    Um belíssimo pequeno texto. Cheio de dor, de ironia, de metáforas que nos trazem as mais variadas emoções e nos fazem pensar. Um leque único e curto de 4 personagens, sem-abrigo, em diálogo constante entre si mas também com o leitor. Das flores de plástico, às semelhanças do rosto de Deus com Kafka, passando pelas muitas portas que há no mundo… é ler.

O Cultivo de Flores de Plástico
ISBN:
9789897849237
Ano de edição:
11-2023
Editor:
Companhia das Letras
Idioma:
Português
Dimensões:
128 x 196 x 10 mm
Encadernação:
Capa dura
Páginas:
112
Tipo de Produto:
Livro
Classificação Temática:
EAN:
9789897849237

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