Em Terra de Cegos... é considerada uma história entre as melhores da
literatura em que o tema da "cegueira" é o foco principal da narrativa,
quase sempre revestido de uma carga simbólica e alegórica vincadas, como
disso é também exemplo O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.
Numa terra de cegos em que todos estão convencidos que nada mais
existe para além da realidade que conhecem, quando um estranho, surge
de fora e tenta convencê-los do contrário, não é de admirar que não
só não acreditem nele como ainda o tratem com alguma hostilidade.
Numa primeira fase, a da condescendência, Nunez é encarado pelos
cegos como um ser ainda não totalmente formado e sobretudo insano.
Mas dada a sua insistência em querer fazê-los acreditar na faculdade
da visão, rapidamente se torna um ser incómodo e a expulsão violenta
surge como única forma de proteger a comunidade. Assim, a Nunez
só resta assumir a sua inferioridade e impotência que contraria a sua
convicção inicial de que "em terra de cegos quem tem olho é rei".
E talvez por força do amor de Medína, por quem se apaixona
entretanto, ou pela simplicidade e funcionalidade com que tudo se
processa no vale, numa espécie de Alegoria da Caverna inversa, o único
que detém a "visão" começa a aceitar o mundo das "sombras" como o
mundo "real": "gradualmente, o vale transformou-se no mundo verdadeiro
para ele, e aquele que se situava para além das montanhas constituía uma
região lendária".
Mas uma súbita tragédia poderá devolvê-lo ao mundo em que quase
deixara de acreditar.