«Uma das particularidades da escritora de que aqui nos ocupamos é a sua permanente dissidência relativamente a uma literatura nacional. Tendo escrito na Bélgica em português grande parte da sua obra, a autora aproxima a sua escrita da de Kafka que, como ela, escreveu uma literatura menor - nos termos de Deleuze (Deleuze 1975) -, no interior de uma tradição alemã à qual não pertencia. Escreveu, como Kafka, em sobreimpressão, palavra que cunhou para descrever uma escrita que constrói paisagens belgas sem raízes reconhecíveis entre os falantes do português. (…). Por este motivo, a autorreferencialidade do texto llansoliano é mais do que uma dobra reflexiva do texto, é o reconhecimento de uma falta, de um vazio que, a partir de uma ausência de referências culturais comuns a quem escreve e a quem lê, desencadeia o movimento da escrita onde a leitura se inscreve já, como se fosse uma máquina de emaranhar paisagens (Helder 1963).»
Do Prefácio