Num pano de fundo histórico-cultural oitocentista, durante os
reinados de D. Luís e D. Carlos, o humorista e caricaturista Rafael
Bordalo Pinheiro (1846-1905) aparece, antes de mais, como um crítico
coerente e infatigável do Fontismo, da Regeneração, de toda a
monarquia constitucional, e, para além deles, de todo o universo
cultural e social que deles deriva e no qual se move uma população
que, uma vez por outra, como o pobre Zé, vai espreitar os robertos da
Arcada ou de São Bento. O seu lápis tudo regista e fustiga com a sua
troça desprovida de ódio, rematando esse labor naquilo que, de certo
modo, podemos considerar como a sua criação suprema, ou seja, a
criação dum Mito verdadeiramente nacional, o auto-retrato satírico
chamado Zé Povinho, ao mesmo tempo que escalpeliza tudo o que, de
perto ou de longe, pertence a essa vasta maquinaria institucional, na
vida dos partidos, dos homens que se dele vivem, dos bacharéis
diplomados em Coimbra aos amanuenses da maquinaria estatal, sem
esquecer os seus pífios intelectuais, com primazia para os gazetilheiros
dos pasquins.