"Capto a essência da luz que se reflete ao longo do gume da espada que se encontra inerte sobre o dorso deste grande oceano. Esta lâmina que corta as ondas e os ventos produzidos na garganta do dragão, ergue-se ligeira, vencedora, entre fajãs, cais e calhetas, até ao alto dos cumes que separam os meridianos imaginários nesta latitude que no horizonte se solta, carregando dentro de si toda a energia do sonho metafísico que produz as cores múltiplas que das suas faces escarpadas se derramam até aos meus olhos. Luz, luz, luz, (…). É assim que inicia o primeiro texto de abertura desta *Espada Literária*, embebida num périplo poético que funde a imagem e o texto sem que o texto e a imagem fotográfica se interliguem.
O terceiro livro de um périplo poético pelos Açores continua de novo a derramar uma poesia misteriosa pelas suas 208 páginas num sentir desnudado com que os autores se apresentam. A abertura das retinas aos mais ínfimos pormenores estimula os recantos da consciência humana, quando assimiladas pela viagem e recolha instantânea na filtragem carregada de outras equações paralelas…
"Ilha frágil e derramada, virada às pontas, / saudosa da viagem em sentidos diversos, / porque nela congregaram, aprisionados, / livres povos das cinco partidas do mundo." — começa o poeta.
[…]
"Amei tanto. / Amei-os tanto, aos rebeldes. / Não soube transformar o traço, / o desenho ficou rombo, / falhei, vate, velho. / Amei tanto." — termina o poeta.
Ou como nos diz António Pedroso: "Há muito, muito tempo, quando os deuses ainda sussurravam aos ventos e o mar falava em trovões, nasceu no coração do Atlântico um ser colossal — um dragão de pedra e fogo, moldado pelas forças primordiais da Terra. O seu corpo estendia-se como uma espinha dorsal entre as águas revoltas, guardando o centro do arquipélago com olhos de lava e respiração de bruma."