Com vinte e um anos de idade e farto dos provincianismos de Granada,
o jovem Lorca mergulhou de corpo inteiro no turbilhão cultural de
Madrid. Lia tudo, ouvia tudo, via tudo, tinha vizinhos de quarto tão
invulgares como poderiam sê-lo Luis Buñuel e Salvador Dalí, mas não
frequentava as aulas: divertia-se e divertia, e em papéis soltos as suas
poesias começavam a encher-se com uma Andaluzia essencial, de
morte cantada como mutilação trágica da vida, de touros e homens num
abraço de agonia flamenca, de santos com suores e lágrimas de sangue,
de santas com rendas e rostos de mulher nocturna, de ciganos em estado
de inocência. Os anos de vida que lhe sobravam, dezassete, foram
vividos com uma escrita que o manteve à volta deste mundo saído da
Espanha profunda; celebrada nos seus poemas com tiques que insistiram
em cavalos com espumas do mar, em jacintos e lírios, em jardins com
nardos, basiliscos e cicutas onde vivia a sombra fria dos homens da
Guarda Civil, em céus onde uma lua maléfica tinha seios de estanho
duro; com metáforas até ali desconhecidas na poesia espanhola, por
vezes armadilhadas quando pediam auxílio aos sentidos menos
conhecidos de palavras vulgares para fazer subir mais um degrau à
surpresa das imagens; lembrando-se, por exemplo, de paje para dizer
«toucador», de madera para sugerir «talento», de tortuga para designar
uma «lira romana», ou de pan para referir uma delgada «folha de ouro»