Do seu próprio livro diz-nos Gomes Leal que «O conjunto de
todos os depoimentos fará correr a jorros uma luz claríssima
como de gás acetilene sobre uma das épocas mais originais da
História Humana. E então se verá que a obra nada fica a dever
em perversidade, e em cenas melodramáticas inesperadas, aos
dramas da Camorra, dos Rosa Cruz, ou dos Iluminados da
Alemanha, nem em crueldades e paixões tenebrosas e riscadas
de vergões sanguinolentos, como listrões de sangue de uma
aurora polar, aos flamejantes incêndios de Moscovo e da
Comuna de Paris, ou aos dramas ominosos da primeira
revolução francesa, nas semanas inexprimíveis e sinistras do
Terror.
E agora, que já levantámos ao leitor uma pontinha do pano do
teatro e do florido cenário — que é Portugal —, onde se vai
desenrolar todo o drama sanguinoso e original, narremos como
foi que o autor travou conhecimento com a estranha figura de
revoltado, que vai abrir as páginas da nossa história, e cujas
feições tanto nos intrigaram ao princípio, como se fosse o
próprio diabólico Melmoth, mas irreconciliado.»