A Companhia dos Corvos é uma memória da guerra colonial que fiz
em Moçambique de 1963 a 1966 e os corvos que lhe dão o nome não
são a consigna da minha Companhia de Caçadores, são corvos mesmo,
crocitando ao redor do Posto Administrativo do Unango, no distrito de
Vila Cabral.
Como hão-de ler, os corvos caíam que nem tordos, primeiro para
afinar a pontaria, depois para comer na brasa, com umas pedrinhas de
sal por cima e piripiri a gosto.
Para além dos corvos que ainda por lá voarão, peço-lhe que não queira
identificar mais ninguém nestas memórias, porque as fui ajeitando ao
longo dos anos, outros tantos fizeram o mesmo, o que permite que cada
um apresente a sua própria versão de qualquer acontecimento.
Bom exemplo é o de Gustavo que, tendo regressado da guerra sem
uma beliscadura, transformou em cruz de guerra a cicatriz que sofreu
na coxa, muitos anos depois, em banal acidente de viação. Mas, se lhe
prestar atenção, também é capaz de escutar o tiro do canhangulo que lhe
fez a ferida e de elogiar a intrepidez com que resistiu.
Estas memórias são para os meus camaradas, principalmente para
aqueles que mantêm, no corpo ou na mente, um contencioso com a
guerra colonial que ainda têm medo de perder.
Eu há muito que me deixei disso e a minha filha que, na minha
guerra, só existia nos aerogramas de amor que eu trocava com a Edite,
dir-vos-á que sou, definitivamente, um Homem de Paz.