Um Astro Aceso no Ventre
Do ensaio de abertura:
«A Viagem e a Claridade na Poesia de Maria José Quintela
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O novo livro de Maria José Quintela (Um Astro Aceso no Ventre) não só mantém as inquietações temático-poéticas dos livros que o precederam, como respeita a não obediência formal aos trabalhos anteriores desta autora: aqui, estamos perante cinquenta textos cuja poeticidade se entrecruza com um cismar, cujas imagens apresentam assumidamente um pendor introspetivo, existencial e, até mesmo, ontológico.
Creio poder iniciar a minha leitura da presente obra através de três ideias fundamentais: um, o seu título, que não me parece circunstancial (Um Astro Aceso no Ventre) remete-nos de imediato para o conceito de umbigo do mundo intrínseco ao Pensamento Mítico e que na Mitologia Grega tinha uma explicitação clara: Zeus envia duas águias com o intuito de apreender o centro do mundo, o seu núcleo geográfico e espiritual: as duas águias cruzam-se em Delfos, cujo oráculo passaria a estar, durante séculos, aceso no ventre da Hélade; dois, o propósito deste livro coincide, quanto a mim, com aquilo que é avançado por Gabriel Marcel na sua obra maior: " Mas é a alma, especificamente, que é uma viajante, é da alma, e apenas dela, que convém dizer-se, que ser é estar em viagem" (In Homo Viator, s/c, Aubier - Édition Montaigne, 1963, p 10); três, a dicotomia poesia/prosa: Aristóteles, na sua Poética, é perentório: nem todos os poemas são poesia, e dá como exemplos a produção dos Trágicos e o Poema de Parménides, ora, extrapolo eu, essa mesma poesia poderá, então, assumir a forma da prosa, ou seja, textos onde ao verso suceda a linha, e que, não sendo mera prosa poética, é poesia em forma de prosa, onde a essencialidade da Função Poética é iniludível e determinante - é este o caminho de Maria José Quintela neste seu novo livro.
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Víctor Oliveira Mateus