Sílvia M. Vasconcelos acredita que a poesia nos visita. Não a escolhemos, não a decidimos. Porventura, diz, somos escolhidos naquilo a que chamamos inspiração. Se a escrita em geral é diária para si, também por razões académicas, a escrita poética acontece-lhe, não é premeditada. Nasce de afetos, de apegos, da paixão, sobretudo. De memórias, e de lugares também. Germina sem razão, a não ser a razão (in)existente na paixão.
Os poemas de Solitude são dos últimos dois ou três anos. Mas a autora adverte que a escrita materializada tem, tantas vezes, um caminho prévio e invisível em que se inscrevem poemas de outras formas: nos afetos que nos seduzem, nos lugares que apreendemos, nas dores que nos assaltam, na ternura que nos premeia, nos instantes que captamos… Estes poemas, na verdade, foram sendo escritos pelas suas vivências e memórias - e a mais remota e terna é a da sua avó.
Nos seus versos, Sílvia M. Vasconcelos encontra a viagem. Para dentro de si, para dentro dos seus afetos, dos seus lugares, das suas paixões. Dão-lhe o encantamento das palavras e a possibilidade de as esculpir e tentar aprimorar em poemas que são a extensão de tudo o que foi e viveu. Devolvem-lhe a capacidade de acordar de um sonho sem ter medo de cair. Vê as palavras como inúmeras formas de existir, de se desvelar, de cair, de renascer. Desvendam realidades interiores que nos habitam sem o sabermos, e que nos permitem sobreviver sem fugir.
A autora partilha ainda que a palavra solitude conscientemente a define desde sempre, talvez pelo facto de ter crescido como filha única mas sem jamais se ter sentido só. É a solidão positiva que serve de leito para a introspeção e para o encontro recorrente com o que nos dimensiona. Dito de outra forma, é a solidão que acompanha, sem que doa, a solidão íntima e profunda, que ilumina. Qual entidade divina e reconfortante, mesmo no ermo de uma montanha fria. Pode ser lida também pela mudez de um ilhéu frente ao mar que se declara numa reclusão buscada, ou na serenidade soprada pelo cair da noite.