"D. João" de Molière, com tradução de Nuno Júdice e encenação de Ricardo Pais, estreou no Teatro Nacional São João (Porto), no dia 16 de Fevereiro de 2006.
"(…) Um dos aspectos interessantes desta nova versão do mito de D. João é o modo ambíguo como Molière constrói o seu personagem. Se, a uma primeira leitura, há a tentação de fazer uma leitura moralista e aceitar o que parece ser a sua condenação ao Inferno, num plano mais profundo encontramos na sua boca a crítica violenta não só dos códigos opressivos da sociedade francesa - baseados na religião e na monarquia - feitos de forma bastante clara, designadamente no que toca ao ateísmo, o que só é possível porque Molière aproveita esse lado negativo do personagem para meter na sua boca afirmações que seriam imediatamente esconjuradas se feitas por um herói em quem o público se pudesse reconhecer.
É isso, no entanto, que vai fazendo com que D. João acabe por "seduzir" esse público, acabando por se lhe tornar simpático, não só pela subversão do seu pensamento como pelo seu desafio a todos os interditos - desde o do sexo até ao das censuras, mesmo quando elas são personificadas por figuras do outro mundo, como a Alma do Comendador. E será este facto que explica que esta peça tenha visto a sua carreira reduzida a quinze representações no ano de 1665 e, finalmente, não tenha voltado à cena por muitos anos, só tendo sido editada em 1682, em versão expurgada, depois da morte do seu autor." Nuno Júdice