(…) «Vamos, toca a levantar, o sol já vai alto e temos um dia cheio de coisas novas pela frente». Era sempre assim, com esta frase feita, daquelas que saem sem filtro, mas de uma forma delicada como só ela sabia, que Rosa estava habituada a despertar e fazer levantar os residentes daquele andar. Quando Maria a conheceu, era uma moçoila mediana, de traços finos, morenaça e de olhos rasgados, a bater os 30 anos, se tanto. (…) Desde esse primeiro encontro, gerou-se uma tal cumplicidade entre ambas que foi mais que suficiente para que aquela senhora abrisse inexplicavelmente o seu coração, partilhando, pela primeira vez em cerca de setenta anos, algumas passagens do seu passado mais sombrio, guardadas secretamente na sua memória. (…) (…) «E aqui está a história final da minha história de vida, Rosa. Uma história que nunca partilhei com ninguém, acredita. Só, só contigo». Fez-se um silêncio. Rosa mantinha-se paralisada e Maria levantou-se, a custo, continuando: «E não me perguntes porquê. Ele há coisas que não têm explicação». Aproximando-se da varanda, olhou a paisagem, bem lá ao fundo, e finalizou o pensamento: «E olha, ainda bem que assim é. São os segredos da vida». (…)