«Foi com a Dr.ª Amália a primeira conversa, foi com ela que aflorei a minha vontade de ler histórias a quem gostasse de as ouvir, mas uma contraproposta se seguiu no sentido de em vez de vir contar histórias, ouvir quem as tinha para contar. E assim, com organização e dedicado apoio do Dr. António Fernandes, Anjo da Guarda destas senhoras e meu elo de ligação com o grupo, se deu início às conversas das quintas, quando, de manhã, eu ouvia histórias (...) Terríveis, mas não tanto como as da vida, como estas que estas senhoras partilharam comigo, porque as viveram. Algumas são engraçadas. Têm muito sentido de humor, apesar de tudo. Tornei-me a sua escriba e multipliquei a minha vida, ganhando tantas vidas novas quantas as que generosa e confiadamente me foram contadas. Engana-se quem pense que ali fui dar alguma coisa. Vim sempre de mãos cheias de histórias. De emoções. De vida. De ternura, cumplicidade e amizade. Coisas sem preço. Sinto-me como se me tivessem colocado nas mãos uma coleção de valiosíssimas e delicadas peças de arte e eu tivesse de lidar com elas com o máximo de cuidado. À medida que as conversas prosseguem, vou-me impregnando das suas vidas e já não vejo os rostos de agora, mas os das crianças que ficavam em casa a cozinhar para a família, a cuidar de outras crianças, a trabalhar na horta, a guardar gado ou a ir ao moinho, e a repetir anos na escola, quando conseguiram ir. E pergunto-me: como chegaram até hoje com esta inocência, com estes olhares límpidos? Bebo-lhes as palavras, tenho todos os meus sentidos bem alerta. Avalio-as nas suas vidas como uma espécie de super-heroínas sem a capa normalmente atribuída aos heróis. Por isso, quase foi dispensada a ficção. As histórias são praticamente literais. O grupo continuou e continua a reunir-se como sendo intemporal e estando acima do acidental.»