Adoecer

de Hélia Correia 

Prémio Camões
Editor: Relógio D'Água
Edição: abril de 2010
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«Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações.
Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de enteajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima.
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.»

  • Beleza rigorosa
    Henrique Fialho - Livreiro Bertrand La Vie Caldas da Rainha | 03-06-2019

    Escrita rigorosa e esmerado trabalho de pesquisa documental. É este segundo elemento o que mais se impõe a quem leia o romance. Excelentemente escrito, cuidadosamente montado, pode por vezes sufocar o leitor menos preparado para a densidade informativa condensada ao longo de quase 300 páginas. Tendo como pano de fundo a Irmandade Pré-Rafaelita, grupo de artistas fundado em Inglaterra à entrada da segunda metade do séc. XIX, este livro não escapa a uma caracterização social da época, focalizada, mormente, nos aspectos morais que determinavam e definiam uma clara clivagem entre classes e géneros. Neste sentido, Adoecer pode também ser interpretado à luz do papel que as mulheres ocupavam na era vitoriana. Pautada pelo escândalo desde o início, a relação entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal começa quando os dois vão viver juntos, à margem do que era moralmente aceitável no tempo vitoriano, para uma casa em Hampstead Heath. De raízes diversas, havia algo que os ligava intimamente. Ela odiava obrigações domésticas, ele não nutria qualquer respeito pelas convenções. Ligava-os o prazer de arriscar uma oportunidade de beleza. Hélia Correia pinta-nos esse risco. Para tal, chama à liça várias personagens que à época influenciavam ou se relacionavam directamente com o casal; desbrava o romantismo da intimidade, não esquecendo o reflexo que a relação produzia nos olhos dos outros.

Adoecer
ISBN:
9789896411602
Ano de edição:
04-2010
Editor:
Relógio D'Água
Idioma:
Português
Dimensões:
152 x 234 x 20 mm
Encadernação:
Capa mole
Páginas:
304
Tipo de Produto:
Livro
Classificação Temática:
EAN:
9789896411602

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