Sobre o volume de poemas A Praia, o autor, António Manuel Venda, escreveu o seguinte texto, que surge na contracapa:
«Este livro parte do poema que lhe dá o título, escrito numa madrugada de chuva, frio e desumanidade, depois de regressar a casa com a minha mãe. Tinha sido mandada embora da entrada da urgência do hospital, apesar dos esforços que os serviços de triagem clínica e aconselhamento do Serviço Nacional de Saúde faziam ao telefone para que aí a recebessem e a ajudassem.
Depois desse poema, escrevi outros, cerca de uma dezena e meia, e fui buscar dois ou três que tinha guardados havia já algum tempo.
Na morte da minha mãe, que ocorreu poucas horas depois de ter sido levada de urgência para o mesmo hospital e de eu ter estado sentado no chão com uma jovem médica que me explicou que ela estava bem, acabei por escrever o último poema do livro. Lembro-me de como voltei a levar a minha mãe para o carro, sem perceber bem o que haveria de fazer. Era tão tarde na noite, outra vez madrugada. De manhã, domingo, fui ao centro de saúde e aí aconselharam-me a comprar iogurtes líquidos no supermercado para alimentar a minha mãe. Prometeram a visita de uma equipa para o dia seguinte. Ainda na tarde desse domingo a minha mãe morreu. Na segunda-feira de manhã telefonei para o centro de saúde, várias vezes, mas ninguém atendeu. Passei por lá entre as várias coisas que andava a tratar para o funeral. Comuniquei a morte da minha mãe e disse que já não era preciso a equipa deslocar-se. Agradeceram o meu cuidado.»