«Yugen pode traduzir-se por inefável, algo para o qual nos faltam palavras, entre a beleza e o mistério, algo que nos avisa da nossa condição contingente e da impermanência. Ocorre-me o diário de viagem de Bashô em que se lê: «Cheguei à aldeia onde nasci no início do nono mês. a geada tinha destruído os lírios-de-um-dia do quarto da minha mãe. Tudo mudara. Os meus irmãos tinham os cabelos grisalhos e rugas à volta dos olhos. "Ainda estamos vivos!", foi tudo o que conseguimos dizer. o meu irmão mais velho abriu um pequeno relicário, que continha cabelos brancos da nossa mãe, para que eu me pudesse despedir. Tal como Urashima ao abrir a caixa de joias, as sobrancelhas também se tornaram da cor da cinza. Todos nós começámos a chorar».
Para o meu ensaio: Furusato. O Japão de Valter Hugo Mãe: uma antropologia da reiteração poética, Tomás Guerrero concebeu uma narrativa imagética de Homens imprudentemente poéticos: 36 imagens para cada um dos 36 capítulos do livro de Valter Hugo Mãe.
Aqui apresentamos, em fac-símile, o caderno em que a narrativa imagética nasceu: a nebulosa, sistema seminal…laboratório de criação de Yugen - paisagem-récita, âmago coabitado, reiteração poética.»
José Rui Teixeira