Mais do que uma sucessão de cenas evocativas da vida local, que atravessam os tempos desde os primórdios do século XX aos primeiros anos do século XXI, retratam-se acontecimentos culturais e recreativos, sociais e cívicos que reúnem lembranças reconstruídas, vozes que o tempo não apagou. São ecos de um Alentejo rural onde a vida se organizava entre rituais cíclicos, celebrações coletivas e pequenos atos de resistência, reveladores das formas de sociabilidade, das representações simbólicas e dos mecanismos de solidariedade e distinção que configuravam a vida quotidiana, como se de súbito se regressasse a um tempo suspenso. A bandeira da união, o coreto, a chegada do caminho de ferro, as festividades e celebrações, os momentos mais trágicos ou os silêncios da rádio-telefonia são acontecimentos que mostram como a cultura local resultou sempre de uma permanente negociação entre tradição e mudança. Daí que cada um deles possa ser lido como uma janela aberta sobre um instante, fragmento vivo de uma história maior.
Em Montoito, a noite de 14 de fevereiro de 1941 chegara fria e húmida. Era de madrugada quando o vento começou a uivar como nunca se tinha ouvido. Primeiro parecia só mais uma ventania de inverno, mas, de repente, era como se o mundo estivesse a vir abaixo. Não era apenas chuva, nem um vento forte como de outras vezes. Era um sopro desmedido, um rugido que vinha do lado do mar e que ninguém soubera prever. As telhas voaram como se fossem folhas de papel, chaminés ruíram, árvores antigas e novas tombaram pela raiz. O ciclone não destruíra apenas casas, colheitas e uma parte da vida de muitas famílias, mas ferira também o imaginário de segurança de uma comunidade rural habituada a lidar com a dureza da terra, mas não com tamanha violência da natureza.