«… Num rasgo de audácia comecei o KAOS, mas ficou
parado, preciso de arrancar novamente, é coisa para mil
páginas e depois só escreverei teatro, o que mais me
apaixona pelo simples facto de não ter qualquer
repercussão.» (Carta a Liberto Cruz, 17/11/1971)
Neste trecho epistolar, Ruben A. confirma-nos uma
suspeita: a da existência nele, aqui confessada, de uma
pulsão dramática latente que anima, além do mais, tantas
páginas da sua prosa de narrador desassombrado e
indomesticável. E ele aqui o diz no gesto bem soberano
(que lembra António Patrício) de se «estar nas tintas»
para os silenciamentos previsíveis, votados à recepção
cultural de criações dramáticas de portugueses em
Portugal; por culpa isolada ou concertada de desatenção,
desamor, e/ou despeito (questão amarga e atávica que
infelizmente detém a sua actualidade). Mas seja qual for
o obstáculo ou o boicote, tal não atingirá de morte
essa paixão de dizer, em forma escrita, que constitui a tentação
dramatúrgica.