Diz um ditado do deserto que um homem
viaja sempre à frente de si mesmo. Lá, na
solidão, somos sempre sombras banhadas
pelos astros. Ora o sol nos fita de perto,
esbraseando-nos, ora lua e estrelas nos olham
desde o firmamento, esmagando a nossa
pequenez com sua luz distante. As areias são
um mar de tempo, ilimitado mas finito, à
imagem do cosmos.
Avançam e recuam, caprichosamente, sem
destino conhecido. Porém, como dizem
os tuaregues, no fim da areia há sempre
uma montanha. Jogos de luzes, sombras e
ventos descobrem seios e torsos de dunas
que o beduíno transforma em poesia. É um
domínio encantado, mais do que lar, porque,
para os beduínos, a casa é o túmulo dos vivos.
No deserto nunca paramos. Mesmo se
detemos o olhar buscam-se horizontes de
oásis e miragens. Lá somos fragilidade em
movimento mas, além da nossa dimensão,
alcançamos outra, mais serena e alta. Essa flor
que, sem o ser, é desolação, como o aloendro
que se agarra aos seixos dos uedes: brota a
consciência de sermos mais um grão apenas,
à beira de se volver em pó. Quanto vemos ou
sentimos não passa de edição do olhar sobre
o avistado, a par das visões que outros seres
experimentam na lonjura.