Nada é certo, mas provavelmente nunca mais escreverei algo similar passível de ser publicado. Coisa que não me preocupa excessivamente; talvez por isso, desejei que este pequeno livro fosse dado a ler e não tivesse o desti¬no da gaveta onde se amontoam, notas e apontamentos, post-its ou textos que nunca são revisitados.
"(…) Sou velha. Velha como as coisas velhas.
Tão velha que poderia reivindicar, para mim, a própria ideia de velhice. Certamente, nunca o seu ideal.
Envelhecer está sempre preso a uma celeridade assustadora. Tão incontornável quanto a alternativa, a que é, sistemática e se possível, deliberadamente, adiada.
O que diria de mim mesma?
Só isto: sou a mulher que vive no prédio em frente, numa rua qualquer, sem nada de distinto ou inconfundível."
"(…) Quando aqui chegar perceberá. Eu ficarei à espera do reencontro, desejando ser outra diferente da que agora estou sendo.
Que a minha voz seja distinta;
Que o meu reflexo no espelho seja outro;
Que o meu encontro nunca ocorra e, como uma me-mória esquecida fique a pairar na solidão do mundo;
Que ela se torne outra de si: esse o meu propósito e o meu desejo (...)"
Livro escrito a três vozes, onde se narram fragmentos de vidas que se entrelaçam, durante um curto espaço de tempo: Sobre emoções e envelheci¬mento inevitáveis; Sobre a memória e as memórias construídas; Sobre o sentido e os sentidos procurados; Sobre as escolhas que o acaso proporciona; Sobre as vidas que a Vida tem. Uma história universal pela discrição e banalidade próprias de todas as pequenas histórias do Mundo.
(Uma última curiosidade: foi escrito a partir das canções que acompanham cada capítulo e que, para lá, da evidente importância das letras, não é de desprezar o horizonte musical como elemento da narrativa.)