Ao longo destes anos, trabalhei diariamente, dedicando-me de corpo e alma a uma escultura que pudesse, de algum modo, transmitir os meus medos, as minhas alegrias, os meus anseios, aquilo que sou enquanto ser humano.
Foram horas, dias, meses, anos de árduo labor oficinal em diálogos solitários com a matéria. A Obra, imagem nítida ou turva, é trabalhada mentalmente muito antes de emergir no plano físico. A imagem é construída, destruída, reconstruída, modificada, alterada, rejeitada, rebuscada e o processo não para até ter a certeza da sua execução.
É chegado o momento em que a hesitação do gesto evidencia a probabilidade de não haver mais nada a dizer, nada a acrescentar, nada a retirar. A imagem mental de há alguns meses atrás está finalmente à minha frente, fisicamente. Passou a existir enquanto forma e faz parte do mundo real. Seguramente, a colocação da escultura no seu espaço público é um dos momentos mais difíceis. É pelo olhar dos outros que me vou lentamente afastando da minha obra, sentindo que algum elo se quebrou e que a obra se tornou autónoma.