Na releitura dos autores portugueses contemporâneos, proposta por esta
colecção, inscreve-se agora Manuel Alegre com a sua poética da viagem.
O estudo que se apresenta segue o seu trajecto literário sem adoptar
rigorosamente uma via cronológica, a fim de melhor apreender as conexões ao
longo dele estabelecidas e sempre sustentadas pela dinâmica da viagem,
enquanto gesto fundador do imaginário e da escrita. Nesse itinerário se traçam
as linhas essenciais para o entendimento dos variados tipos de discurso: do eu e
da sua história, tendencialmente autobiográfica, e da História colectiva como
projecto de re construção de um país e de um povo, passando pela configuração
da poesia e do seu alargamento ao romance e ao conto, bem como pela
argumentação do ensaio, esses modos distintos de palavra e de acção sobre o
outro que concorrem para a escrita da viagem.
Num mundo de destruição e desesperança e numa época de usurpação da
linguagem e dos valores, a escrita virá assumir a gesta epopeica da viagem de
(re)descoberta: do lugar do eu, do outro e da pátria, … cuja exaltação se
identifica à da língua portuguesa; de um verbo primordial, utopicamente
concebido, susceptível de restituir o mundo à imagem do texto.