Prisciliano (c. 345-385), bispo de Ávila entre 380-384, será condenado e decapitado em Tréveris (Trier) em 385. Quer as circunstâncias que levaram à acusação de heresia dessa figura tão enigmática, quer o facto de ter sido o primeiro cristão a ser executado pelos poderes políticos constituídos exigem uma adequada contextualização que a presente obra de Margarida Barahona Simões vem esclarecer. Nesse sentido, a obra dá a devida atenção ao complexo percurso e vicissitudes da Igreja na época pré-constantiniana passando pela sua adopção como religião do estado tendo em conta desenvolvimentos posteriores. Prisciliano e o movimento priscilianista que se segue, talvez o tema que tem merecido até agora mais atenção são, porém, realidades distintas. Centrada na obra de Prisciliano, a autora estuda a dimensão ascética relacionada com o problema da dualidade antropológica e a incompatibilidade entre os desejos da carne e os anseios espirituais.. O ascetismo rigoroso de Prisciliano merece também, ser comparado com atitudes mais moderadas no seu tempo. Por isso é dada uma atenção especial ao poeta Prudêncio (348-c. 405) permitindo que do confronto se clarifique o choque de concepções verificados no Concilio de Saragoça (c. 380). Prisciliano impele a uma renovada prática evangélica que questionava, desde logo, o clero mais acomodado. Entrando no terreno complexo, não só da ascética, mas também da soteriologia e da escatologia estamos perante uma obra incontornável sobre as tensões religiosas ocorridas no século IV e sobre uma figura que continua a suscitar interesse e constante polémica. (Margarida Simões Esteves Pereira)
I. Prisciliano e o contexto histórico, religioso e cultural
1. A ambiência mental: religião, filosofia e política
2. Ruralização e cristianização na área cricumpirenaica
3. Cristianismo e ascetismo
4. Práticas ascéticas e litúrgicas na Hispânia do século IV
II. O pensamento religioso de Prisciliano
1. Prisciliano e a importância das escrituras canónicas e apócrifas
2. Prisciliano e a doutrina ascética
3. Prisciliano e o mistério soteriológico
4. Prisciliano e o mistério escatológico