Este livro agrupa três elementos estranhos e aparentemente díspares: o pensamento político de Victor Hugo, a intelectualidade lusitana de oitocentos e o ideal da unificação europeia. De facto, o poeta e romancista francês não é famoso pela sua actividade militante e parlamentar, os autores portugueses do Liberalismo não são conhecidos no seu europeísmo e o projecto da União Europeia costuma ser visto como bastante posterior. Apesar disso, a autora consegue, partindo desta insólita trilogia, conceber uma narração surpreendente, cativante e inesperadamente informativa.
O livro consegue abordar, de várias formas e perspectivas, a triangulação entre Hugo, Europa e Portugal. Além disso, e a propósito, aduz elementos laterais de grande interesse, como seja a biografia política do poeta, as repercussões culturais da sua obra em Portugal ou o impacto que a precoce abolição da pena de morte em terras lusas teve por toda a Europa. Para lá deste levantamento historiográfico e documental, a obra vale pelo que nos revela da arqueologia do projecto mítico que a União Europeia viria a pretender concretizar historicamente. Voltar às raízes serve-nos para reafirmar o essencial.
Este ideal europeu de Hugo tem alguns traços importantes que vale a pena sublinhar. O mais evidente é a referência à paz. É num enquadramento de rescaldo de terríveis conflitos que a ideia nasce e se desenvolve. Será também no rescaldo de um conflito ainda mais terrível que ela acabará por nascer, setenta anos depois da morte deste seu inspirador original. Vê-se assim como esta relação entre o ideal da Europa unida e o sonho da paz perpétua é genética e nunca pode ser esquecido.
Por último é ainda de referir um elemento peculiar deste livro: a interacção entre o texto literário e um duplo CD, para fazer "leitura livre ao som da música". Trata-se de uma ideia original e inesperada que torna esta uma arrojada experiência cultural.