No Sul de Itália, na década de 1970, uma mulher gravemente doente engravida, e tem de tomar uma decisão drástica: continuar a tratar-se para sobreviver, ou interromper os tratamentos para dar à luz. O caminho que ela escolhe é condição de existência deste livro. Em Ocupação da Mãe, Paola D’Agostino procura forjar uma língua partilhada entre mãe e filha, para construir a narrativa de um laço que nunca chegou a existir.
Face à ausência da voz da mãe, face ao silêncio instalado depois da sua morte, a autora cultiva a escuta e a contemplação. Coloca o ouvido na terra, procurando discernir o rumor surdo que a atravessa e unir pontos invisíveis da sua própria vida. Observa, como se perante uma fotografia, a condição feminina numa sociedade católica, conservadora, patriarcal, onde as escolhas são limitadas e os sonhos de liberdade, infindos.
Se não tivermos conhecido a nossa mãe, talvez nos falte para sempre uma língua materna, ou talvez fiquemos numa travessia sem começo nem fim. Este é um livro que põe em cena o desejo primordial de pertença e, paradoxalmente, o impulso permanente de mudança. A travessia, afinal, é contra o esquecimento.