«Com vivacidade crítica e expositiva, o historiador acompanha os seus leitores de um modo atraente que nos obriga constantemente a tornar viva a memória dos acontecimentos e das circunstâncias analisados. Ao começarmos pela lenda do Preste João das Índias, podemos entender a atualidade das razões de Zurara, ligando-as aos desafios lançados ao Infante D. Henrique, confrontado com a emergência da queda do Império Romano do Oriente e com os primeiros sinais da primeira globalização. Já Marco Polo descrevera uma situação incerta relativamente a essa misteriosa personagem, em busca da qual se moveram céus e terra até ao seu encontro, como algo de decepcionante.
Só conhecendo o mito e a lenda poderíamos aproximar-nos da compreensão de tudo o que enquadrou a extraordinária empresa do Índico, que teve tudo menos de improviso ou de loucura. Daí a importância de estudarmos a génese da estratégia portuguesa nas Índias, as hesitações após a chegada ao subcontinente, o testamento político de Diogo Pereira, o Malabar, no contexto do projeto oriental dos Gamas, e a significação de Malaca, como grande empório marítimo, ponto essencial na estratégia do Índico e de passagem para a China e o Japão, em articulação com Goa e Ormuz, abrangendo a compreensão da economia e da sociedade no sueste da Ásia no século XVI, envolvendo o estudo da escravatura e da produção de riqueza. Aliás, quando tive oportunidade de visitar Ternate e Tidore, com o autor destes estudos, compreendi bem a atualidade da reflexão, por exemplo, sobre as cartas malaias de Abu Hayat, sultão de Ternate, a El-Rei de Portugal, nos primórdios da presença dos portugueses em Maluco.
[…] A visita aos locais onde a História teve lugar permite uma compreensão que complementa os testemunhos passados e os documentos escritos. Daí a importância do confronto entre a realidade atual e textos como "A costa ocidental da Samatra nas fontes portuguesas quinhentistas" ou "As religiões e a Religião na obra de Fernão Mendes Pinto", que demonstram a riqueza de conhecimentos pelo historiador de uma realidade que foi evoluindo desde a estranheza até uma realidade subitamente tornada familiar. Com uma preocupação permanente de salvaguardar a complexidade e de recusar as explicações superficiais ou imediatistas, a cada passo encontramos as contradições e os paradoxos, sem mitificar o passado nem iludir o presente.»