Aquilo que o "Estado" e a "política" têm como ponto comum é a sua referência ao fenómeno multifacetado do poder. Do grego "kratos" (força; potência) e de "arché" (autoridade) nasceram algumas das principais designações das formas de governo, tais como "aristocracia", "democracia", "oligarquia", palavras que são usadas para indicar formas de poder. Não há teórico da política ou do Estado que não parta, de forma directa ou indirecta, de uma dada definição de "poder" e de uma análise do fenómeno, nas suas várias manifestações.
O direito coexiste muitas vezes com o poder, sobretudo quando nos colocamos no plano da acção do Estado, e quando se privilegia o poder recto, justo ou legítimo. Mas quando olhamos para os quatro mil anos da história do Homem vemos quanto esta dimensão do poder é ainda recente e juvenil. Robert Heilein, conhecido autor de ficção científica, escreveu que a raça humana se divide entre aqueles que querem ser controlados e aqueles que não têm esse desejo. É fruto da experiência humana que os governos não gostem de ser controlados, mas impõe a preservação da liberdade que o sejam, para nosso e seu benefício. É esse o papel do direito, nas sociedades livres.
Este livro trata da tensão complexa e luminosa entre poder e direito tanto de um ponto de vista filosófico, mais geral, como da forma dinâmica que assume em certas sociedades habitualmente designadas de transição. Não tem a pretensão de revelar as saídas certas, apenas abre caminhos para a reflexão necessária.