Os poemas passionais que o leitor tem em mãos, muito distantes do velho amor romântico ou da anêmica paixão pós-pós-moderna, são a expressão viva de uma minuciosa revolta. Mas não, como é usual, apenas contra o ser amado ou o vazio deixado pelos afetos que a vida esgarçou. a revolta, aqui, tem por objeto central a própria condição humana. "Falo demais, exponho crateras (...), zarpo para o alto mar por não suportar a firmeza da terra", lemos no poema IX, para logo a seguir descobrirmos que não há cais possível nesta circum-navegação poética: "Sem partir, parir, pirar, planar, procurar, não sei permanecer". O caminho é longo e passa pelo desmascaramento do machismo ("Se eu for menos tu serás mais"); por mergulhos líricos ("Tenho nas mãos a tua ausência"); pela lama rasa do mundanismo ("Serei a que paga as contas do meu rosário com o meu odioso salário"); ou pela aspiração à sabedoria ("Um dia, quando souber ser feliz, serei silenciosa"). Entre o corpo aprisionado na distopia do amor e o atordoado espírito que sobrevoa os rastros do caos, ficamos com a poesia inquieta de Rita Tormenta, vertida em palavras que sangram luminosamente.