O livro que deu fama (e infâmia em igual grau, para alguns) ao seu autor
chega, enfim sem censura e pressão política, a Portugal. Perto de quarenta
anos após uma primeira edição censurada e retirada do mercado, em pleno
estertor do salazarismo, O Pássaro Pintado de Jerzy Kosinski é, por fim, lançado em Português deste lado do Atlântico. Esta odisseia de uma criança
anónima que sobrevive durante os anos da Segunda Guerra Mundial, escondida, nas aldeias e florestas da Polónia, do perigo dos invasores alemães e
da brutalidade do resto do mundo, é um misto de memória pessoal (também
o autor foi separado dos pais nesse período) e de tentativa de exorcismo
de uma geração através da representação do inefável, do inimaginável.
Sem qualquer sentimentalismo e pendor ideológico, somos levados pela
mão para o centro do palco do mais terrível drama da História. E deixados
na floresta. Pelos olhos desta criança, a trama política é relativizada:
qualquer agressor é um inimigo, e todos os são quando temos a pele da cor
errada, no local e na época errados. E num tal cenário, os monstros míticos
tendem a misturar-se com os demónios humanos. Ao mesmo tempo, um
memento mori e um hino poderoso à fantasia criadora e à capacidade de
sobrevivência, O Pássaro Pintado é um clássico, mas é também um desafio: conseguirá o leitor sair da floresta?