Setenta e duas são as virgens que cabem a todo mártir da fé, reza a tradição islâmica, e não há de ser diferente no caso de Muhammad Mané, ou seja,
Manoel dos Santos, promessa do futebol alemão e internacional, recém-converso e recém-imolado à fé de Alá. Setenta e duas, todas belas e
amoráveis, dando mole como nunca em vida, recendentes a maionese e eucalipto. O Paraíso parece ser bem bacana. Mas não. Preso a uma cama de
hospital em Berlim, à beira da morte, Mané desfruta, enquanto é tempo e de uma só vez, tudo o que lhe foi sistematicamente negado ao longo da vida
breve e da carreira ainda mais - sanduíches regados a maionese, mulheres lascivas e maternais, seios protéticos e orifícios com odor de eucalipto, sem
as perebas, secreções e borrachudos de sua miserável cidade natal, Ubatuba, no litoral paulista. Mesmo em sonhos está reservada ao atleta a
revelação de que, afinal, 'é tudo Inferno'.