"O Diabo" foi uma peça central nas encruzilhadas intelectuais da cultura portuguesa dos anos trinta. Por ali passaram os sobreviventes do pensamento e jornalismo republicanos e anarquistas, bem como os jovens neo-realistas em processo de afirmação do marxismo em Portugal. Assim, o semanário, ao longo dos seus seis anos de publicação, funcionou como campo das lutas e redefinições da esquerda colocada perante o desafio da repressão salazarista.
Este livro procede a uma dupla operação: em primeiro lugar, procura definir as várias posições em presença em "O Diabo", para depois analisar a evolução dos principais discursos culturais e políticos da esquerda no momento em que, no campo contrário, se define o imaginário da Política do Espírito.
No essencial, a penetração do marxismo junto da intelectualidade da esquerda portuguesa resultará numa nova cultura política. Esta, composta simultaneamente por elementos estéticos e ideológicos, ganhará a posteridade sob o nome de neo-realismo. O neo-realismo constitui, assim, na cultura portuguesa do século XX, uma arma para combater o nacionalismo tradicionalista do Estado Novo. Fá-lo através de uma fortíssima racionalização de todos os elementos do campo cultural (crítica, doutrinação, criação), antes fragmentados em múltiplas correntes e movimentos e a partir daqui centralizados numa única mundividência cujos limites foram aqueles dentro dos quais, durante várias décadas, os portugueses puderam pensar a liberdade e a emancipação.