«Valerá a pena deixar o país, o lar, para varrer as memórias incómodas? Carmo Rebelo concluiu que não. As memórias são uma espécie de argamassa que sustém a construção da vida e sempre acompanha os empenhados obreiros. Mas essa incontornável conclusão acontecia tarde demais, depois de um longo voltear do tempo. Deixou Cascais dias antes de 25 de Dezembro para passar o Natal em Paris, um sonho antigo, sozinha num apartamento em Montmartre. Ao chegar foi sequestrada por dois estranhos pouco depois de tomar banho. E só em lingerie e já inconsciente, foi levada para a parte interdita das catacumbas da cidade. Horas depois, cambaleando, conseguiu evadir-se até às escadas que subiam para uma rua de outro bairro, nesse dia sem grande movimento. Estava embrulhada numa manta suada, sem documentos de identificação nem modo de comunicar. Perdida... Viria a recuperar mais tarde, com ajuda de quem lhe dera apoio, a mala de viagem toda esquartejada. Alguém procurava alguma coisa lá dentro.., o quê? No que restava da mala tocava, por acaso, no vão onde costumava guardar objectos mais preciosos, como uma joia para usar em ocasiões especiais, ou a Pen com os últimos trabalhos. Por sorte estavam lá ambas, mas a jóia que levara dessa vez era um Amuleto que teria pertencido a Antoni Gaudi recentemente comprado a um antiquário amigo em Lisboa. É a partir dele que toda a trama se desenrola. A peça tinha sido roubada há anos do Museu da Sagrada Família para ser vendida em Paris e depois de adquirida por um coleccionador, fôra de novo roubada e vendida em Lisboa. Tratava-se de um colar com cadilhos de afectos e informação preciosa só mais tarde revelados. No fundo do colar havia uma grade que dissimulava uma escada em hélice e terminava num pendente bojudo que continha segredos: sinais que remetiam para as maquetes em gesso no Museu da Sagrada Família. Entre tantas outras deviam ser essas, e só essas, as escolhidas para concluir as obras do Templo segundo o sonho de Gaudí. Este é coração do romance. O corpo que o envolve é uma constelação de histórias de amor e traição reveladas nos primeiros capítulos, até ao Amor rejeitado de Gaudí por uma Mulher especial e ao das personagens principais, que venceria todas as frustrações. Afinal, a Catedral da Sagrada Família é, também ela, a história da Natureza enlaçada numa coreografia de memórias afectivas, emanadas do sonho obsessivo de Antoni mantidas e replicadas na intemporalidade.»
Maria Helena Ventura