Longe que estamos do tempo das orações e dos ensalmos, das rezas
e das ladainhas, sobrevivem em nós superstições, vestígios de um
mundo que nos liga e que nos passa, hoje e a nós, despercebido. O
primeiro exemplo é o dos nomes, os nossos nomes. Regidos pela
necessidade, não são nunca produto do acaso. Atestam-no as antigas
crenças, essas que abrem o caminho da reflexão, depois já sobre
canções de embalar ou cantos de trabalho, contos, romances e
baladas - textos, tecidos, toscos mas matéria, mãe, madeira (aquela
em que se bate três vezes para assegurar protecção).
À maneira dos feiticeiros de uma ilha do Pacífico lancemos a rede
de corda grossa com nós de diferentes dimensões para apanhar nessa
armadilha a alma de textos maiores ou menores. Ao modo do pescador
algarvio daremos um nó no cabo do Cairo ou num baraço qualquer por
cada presa capturada e entregue ao escrivão deste barco em que
juntos navegamos. Contemos "o tempo de serviço" à tradição como a
gente moçambicana quando vai servir para a cidade: trazendo à cinta
uma corda e dando nela um nó ao fim de cada lua.