No Centro, à Margem reproduz alguns dos principais resultados de uma pesquisa sociológica sobre a génese,
estruturação e consequências sociais das intervenções urbanísticas e habitacionais promovidas pelo Estado no
centro histórico do Porto ao longo dos últimos sessenta anos. Desenvolvida entre 2010 e 2014 no quadro de uma
investigação de doutoramento financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a pesquisa pretendia
concretizar, através de um aturado trabalho de especificação empírica, algumas ambições analíticas
fundamentais: restituir o quadro de transformações socioeconómicas que, a nível nacional e regional-local,
precedem, tornam possível e acompanham as intervenções do Estado em matéria de alojamento destinado às
classes populares; analisar a rede de relações funcionais e de poder que sustenta, ainda que provisória e
contraditoriamente, as ações da burocracia estatal neste domínio; identificar as grandes linhas do movimento
cultural em que se inserem as perspetivas técnicas, éticas e estéticas (sempre, em última análise, políticas)
sobre planeamento urbanístico, renovação urbana e alojamento das classes populares que se foram impondo no
período de mais de meio século privilegiado no trabalho; aprofundar o estudo das relações de sociabilidade,
interconhecimento e entreajuda nos espaços sociais envolvidos, não sem registar as manifestações e efeitos de
heterogeneidade social e as tensões anómicas que também os marcam; analisar a relação dos destinatários das
políticas de habitação com o Estado, distinguindo o que nessa relação se aproxima ora da mobilização política
sustentada, num extremo, ora da dissidência mais ou menos atomizada, noutro extremo, e considerando
igualmente as gradações intermédias de envolvimento/afastamento das populações em relação às decisões
políticas que lhes dizem respeito; denunciar a acumulação de efeitos sociais perversos (só em parte
inintencionais) associados quer a medidas políticas avulsas, quer a formas continuadas de inconsistência
institucional em que a sociedade portuguesa é fértil, quer ainda a hiatos de ação e a omissões mais ou menos
deliberadas da administração pública central ou local.