«O relato autobiográfico contido neste livro - como fica, porventura, explícito no diário que o integra -, termina, por decisão do autor, aos primeiros dias do Outono de 2015, quando concluíra todos os tratamentos e lhe fora agendada a primeira consulta para acompanhamento de rotina bimensal. o cancro tinha desaparecido.
Nessa altura, também os familiares e amigos imaginavam Mário Cabral velhinho, mestre de orelhas grandes, a continuar a ensinar e a fazer as suas artes com a ajuda de um assistente.
No entanto, já depois da organização dos textos que dariam forma a Não te Abandonarei, Meu Corpo, a doença regressaria, primeiro afectando-lhe a coluna e, mais tarde, os pulmões, conduzindo-o à morte prematura em Agosto de 2017. Tinha 54 anos, a mesma idade com que o pai falecera da mesma doença, como referido pelo autor, com o desassombro que marca toda a obra, logo nas primeiras páginas.
Este livro, dividido em duas partes, uma primeira em forma de exposição do seu caso pessoal e uma segunda compilando ensaios breves mais ao registo habitual do autor, oferecem como poucos a sensação de estarmos a privar também com o homem: a partilhar, não só do seu quotidiano, mas também da sua extraordinária cultura, sensibilidade e singular visão do mundo.
Os poemas Voto de Pobreza e Milho Verde de Julho, referidos no texto Os Fortes e os Fracos, foram reunidos com outros da mesma temática e período, por escolha dos editores, num volume autónomo, sob o título Poemas do Hospital.»
Alexandre Borges - Nota editorial