Nós nascemos e a estrada também. É o caminho de muitos mistérios, há quem lhe chame fado, o fado de cada um. Nós caminhamos sem vermos o horizonte, não enxergamos além da curva, nem do monte, nem do rio, caminhamos sobre os ctónios, albergados nos segredos da terra, e, sob os deuses igualmente mitológicos dos céus, o caminho fecha-se, abruptamente, ou mantém-se aberto aos nossos passos, deixa que o circulem até à alameda impérvia destinada aos seres superiores. Por aí, não. A estrada desvia-se. Mas convida-nos a prosseguir. Vai-nos tolerando. Nós é que já não a suportamos porque a estrada é cansativa, doentia, venéfica e, muitas vezes, pérfida. Quando as engelhas nos sulcam o rosto, as desilusões nos enfraquecem, o corpo, exaurido, não nos obedece, a estrada converte-se em degraus, mas já não desafia pessoas, escarnece delas.