A última década fecha um ciclo paradoxal e inconclusivo, em que nos foi dado experimentar as mais sérias ameaças aos valores que depois do horror da segunda guerra mundial julgávamos adquiridos para sempre: a liberdade, a compaixão, o respeito pela dignidade humana.
As profecias do ódio inundam os meios de comunicação, contaminam as forças políticas dominantes e continuam a inspirar os descontentes mais incautos, comodamente rotulados de populistas. Mas não é verdade que o Mundo esteja condenado à exploração desenfreada dos recursos naturais, aos interesses da indústria do armamento, à ganância anónima dos mercados financeiros internacionais, nem às conveniências e constrangimentos alegados pelos governantes de turno. Nem as expectativas dos mais jovens foram condenadas à decepção.
Bem pelo contrário, a paz, a decência e a solidariedade universais são aquisições da civilização que para subsistir carecem do nosso permanente empenhamento. Falta apenas uma bandeira, um projeto, uma alternativa que fale verdade e queira cumprir tudo o que promete. No ensaio ou na ficção, nos movimentos sociais, na poesia, na música, no cinema e na vida surgem os sinais de um desejo de mudança que reclama uma sociedade mais justa. Da leitura desses sinais cuida esta espécie de diário impresso ao longo de uma década.