«Tudo o que entra na literatura passa os confins do mundo dos fantasmas e, ao penetrar no universo da linguagem, abandona o seu invólucro carnal. O mundo do texto é um espectro, projetado por um aprendiz de ilusionista na alvura das nossas consciências.»
Ao sair da clínica de Beelitz, onde foi visitar uma querida amiga apanhada por um acidente vascular cerebral, o autor transforma a sua melancolia num passeio, tanto para se aquecer como para afugentar a tristeza que o aflige. Enquanto cai a noite precoce e chuvosa do outono berlinense, Mathias Enard caminha pela cidade e pela sua história.
Como numa conversa interior algo dantesca, o seu espírito deambula, vasculha o tempo e a geografia, examina a noção multiforme de fronteiras, de limites… e descobre em todo o lado as clareiras, a esperança melancólica: nas suas lembranças, nas suas leituras ou na sua prática ativa da amizade - que nunca se encontra muito afastada da sua experiência da literatura.
Norte é o primeiro volume desta Melancolia dos Confins em quatro estações, na qual, sob o nosso olhar, Mathias Enard desenha o seu atlas pessoal, cartografia íntima de um mundo feito de hiperligações, incansavelmente percorrido. E consegue, mais uma vez, o tom certo para celebrar os encontros e a diversidade.