Ana Paula Amendoeira: «O saber acumulado que existe no Alentejo, na área
dos lanifícios e da arte têxtil, representa um potencial enorme para a criação,
produção e transferência de conhecimento, contribuindo objetivamente para
assegurar futuro a esta atividade.»
* Autores: Ana Claro, Ana Pires, André Pinto, Annet Couwenberg, António Quadros Ferreira, Ariana Moroder, Benedita
Pestana, Filipe Rocha da Silva, Filomena Silvano, Guida Fonseca, Helena Loermans, Hugo Ferrão, Isabel Sabino, Jessica
Hallett, Jessica Hemmings, Joana Fonseca, Joaquim Pinheiro, Johanna Bramble, José Silva, Kevin Rodrigues, Maria
Gimeno, Maria João Ferreira, Nelson Durães, Paula Monteiro, Rita Salvado, Rui Miguel Lobo, Rute Rosas, Sandra
Leandro, Sofia Silva, Susana Pires.
Recordo o episódio da Odisseia no qual Penélope adia sucessivamente o seu casamento com um dos pretendentes ao
lugar de Ulisses, com a desculpa de que tem de terminar primeiro uma peça tecida, na realidade a mortalha para o sogro,
Laertes. Para além de todas as interpretações que o expediente possa suscitar, ele chama a atenção para um fator sempre presente
na história da arte têxtil: o tempo. Por ser uma tecnologia imemorial ligada à adaptação e sobrevivência da espécie humana na natureza, ao lar (oikos), aos dispositivos ligados à caça e à pesca; por ser uma superfície meticulosa, prévia e pacientemente executada ponto a ponto,
a confeção têxtil acarreta a ideia do planeamento e da extensão no tempo, o contrário da urgência e do oportunismo históricos.
Como interpretar então a significativa presença que esta
forma de arte tem assumido nos últimos anos, comprovada
pela sua presença nos grandes fora artísticos mundiais? Como
se conjuga o contemporâneo com o intemporal? […]
O Ponto concentrou-se por isso também na história e na
tradição do têxtil: a perenidade e futuro do fenómeno Arraiolos
e do têxtil no Alentejo; mas também na sua presença entre
os mais profícuos criadores internacionais; nas combinatórias
entre o têxtil e as mais recentes formas artísticas e tecnológicas,
nomeadamente o digital.
[Filipe Rocha da Silva]"