Protagonista e espectador de si próprio e da forte realidade no centro da mata
subtropical do sul da Guiné, ainda, então, colónia portuguesa à força do regime de
Salazar, Filipe Bento inicia uma viagem de vai e vem, contra a linearidade da acção e
mesmo do espaço e do tempo, que o irá retirar do agressivo lugar de guerra da zona
de Medjo-Guiledje, navegando à sorte pelo Rio Cacine, por Catió, por outras zonas de
guerra, até Bolama, até Bissau, tendo em mira a volta a Lisboa e ao Quartel de
Caçadores de infantaria, onde, equivocado, julga ir deixar os restos de si dos últimos
dois anos.
Filipe Bento anseia encontrar os meninos da sua aldeia e não os encontra. Busca
perceber como é que esses companheiros nascidos já escravos das vinhas, se haviam
transformado em soldados prontos a marchar para uma quente e longínqua terra e
uma guerra de que pouco ou nada conheciam. Em que escola, em que catequese, em
que relações de poder envolvendo gente sem terra, ganhões de jorna pouca,
pequenos agricultores, GNR’s, negociantes, armazenistas, caciques locais e "land
lords" de extensas vinhas e grandes adegas, com interesses económicos já noutros
negócios, patrões a quem começavam a faltar a mão de obra local e os beirões para
tratar de suas terras.
E, na sua atormentada busca, Filipe Bento volta ao mato do sul da Guiné, às
emboscadas, às patrulhas, aos miseráveis aquartelamentos onde vivera. Volta a
Medjo/Guiledje e ao Corredor da Morte e aos amigos feridos e mortos. E retorna às
vinhas de seus avós, à ingenuidade da mosca na base do sistema de um Poder e de
um regime que se mantinha no mito do Império que nunca o foi, e descobrindo que
alguns desses meninos que reencontra, começavam a aprender sobre a guerra em
África, o que não sabiam quando para lá partiram.