Guardar, é uma colectânea de poemas escolhidos pelo próprio António Cicero. Alguns textos seus têm sido musicados por artistas como Adriana Calcanhoto, Caetano Veloso, entre outros. Engraçado no trabalho de Cícero é atravessar vários estratos de cultura. Desde a música popular à reflexão filosófica, o que denota uma atitude pluridisciplinar e sem preconceitos. A sua poesia enraíza-se directamente nas milenares tradições da civilização ocidental. Grécia, Roma, a Bíblia, são referências recorrentes na produção poética de Cícero. Ignora-se o seu nome é um pseudónimo, mas pelo menos parece uma coincidência feliz. Mas não se apresenta com um ar formalmente anacrónico, antes pelo contrário. Nota-se por vezes nos seus textos a influência do forte modernismo brasileiro. Com uma certa temática existencial e das relações amorosas. Com um imaginário no qual coexistem tanto os vulcões estromboli e os narcisos á beira d’água com a televisão, com os surfistas ou os garotos de rua. Ler esta antologia de António Cícero é uma boa ocasião para começar a perceber a inesgotável produção de literatura que o Brasil tem dado a língua portuguesa neste século. Fica estes dois versos, com forte lembrança pessoana: "se eu fosse marinheiro/ era eu que tinha partido".