A lamparina vai derramando uma luz pegajosa sobre os objectos próximos, nimbando somente de contornos lunares os que ficam mais distantes. O quarto dir-se-ia nascer junto da cómoda: tudo o resto — cadeiras, guarda-vestidos, toucador, os pés da cama — ainda se não resolveu a ter vida própria.
Quatro novelas lisboetas, quatro histórias em tempos e ambientes diversos da cidade. Gaivotas em Terra (1959) foi a primeira obra de ficção de David Mourão-Ferreira, que se revelou exímio na arte da narrativa curta, logo galardoada com o Prémio Ricardo Malheiros. Estes textos, imediatamente aplaudidos — Urbano Tavares Rodrigues saudou um mestre da técnica novelesca —, comunicam entre si, com personagens reencontradas em várias novelas, e desenvolvem-se como um grande romance sobre a capital. Gaivotas em Terra continua a prender-nos nas suas histórias de amor e desamor, numa certa percepção da realidade portuguesa e da História com maiúscula (Maria Lúcia Lepecki) e a deixar-nos, nas palavras de Bruno Vieira Amaral, posfaciador desta edição, súbditos do império do desejo.