"É tempo de falar do Padre Américo". Assim, nas páginas que se seguem, se vai falar dele. Quer o Leitor conhecer a verdade das coisas? Então venha por aqui que encontrará a ponta da meada, e há de ver.
PADRE JÚLIO PEREIRA
O Pai Américo
Do Pai Américo, quase só posso dizer que o sinto como testemunha entusiasmada do amor de Deus que vivia apaixonadamente no amor do próximo e do próximo adolescente ou jovem com quem Jesus se identificara.
Vi-o mais que uma vez, era eu jovem padre e a sua figura com jeitos de quem procura nunca
mais me saiu da alma.
Do Porto, saiu-se lá para as Áfricas, onde, inteligente como era, conhecia e experimentava
sucessos. E estes sucessos, um dia, incomodaram-no de tal forma, que resolveu entregar-se a
Deus para servir os sem futuro, principalmente das camadas jovens, dos Rapazes da Rua.
Fez-se então sacerdote, não sem alguma dificuldade e (quase) logo se entregou por inteiro
ao serviço desses tesouros escondidos, fundando as Casas dos Rapazes da Rua, o Património
dos Pobres e o Calvário para os sem esperança de cura. O Padre Américo, para manter estas
instituições, corria Portugal e não havia ninguém que se não deixasse tocar por esta figura a
quem muitos já chamavam santo.
Eu tive a feliz oportunidade de conviver com a Casa de Setúbal e quanta força ali sentia no
modo evangélico como se vivia a «herança» do Pai Américo por parte de todos, logo do Padre,
ao tempo Padre Acílio.
A sua obra está estudada ao pormenor no que ao que se vê diz respeito. Importa mais mergulhar
na alma que continua a ser Evangelho vivo, não obstante tantas dificuldades que os
tempos e os homens vão criando.
O actual e célebre teólogo Halik num belo livro O meu Deus é um Deus ferido afirma que a
verdadeira fé nasce da ferida e apresenta o exemplo de Tomé que, só quando tocou as chagas
de Jesus, se deixou cair por terra, exclamando: «Meu Senhor e meu Deus», ao que o Senhor
ripostou: «Porque me viste e tocaste as minhas chagas, Tomé, acreditaste». A verdade da fé tem
a ver com as chagas de Jesus, quero dizer, com as chagas dos que sofrem. Por isso, este Homem,
o nosso Santo Pai Américo, foi um homem de fé profunda e vivida, porque sempre viveu em
contacto com as chagas, que sendo dos outros, eram de Jesus.
Eu vi o Pai Américo na igreja da Trindade, no Porto, de batina e descalço, tomei parte nas
exéquias e participei no seu funeral. O Porto veio todo para a rua, chorando. É que ali ia um
Santo. É que ali estava um Santo. Está em curso o processo da sua canonização, mas o povo de
Deus já se antecipou.
D. Manuel da Silva Martins
Bispo Emérito de Setúbal