Nunca havia sido dia até ao amanhecer de 25 de Abril de 1974. Nunca se havia respirado como quem vive, antes se havia vivido como quem morre. Inalava-se e exalava-se não oxigénio, mas terror. Não havia outros além do medo. A ditadura sentava-se numa cadeira na mente de cada um, deixando-se ficar como parasita, apenas saindo para ocupar um fosso ainda maior: o espaço entre as pessoas. (…)
Este livro, cujo título é retirado do magnífico poema de Sophia Mello Breyner, divide-se em três partes: A primeira parte, Março, abarca todos os poemas sobre o período da ditadura. A segunda parte, Abril, fala-nos do dia inicial inteiro e limpo, da madrugada que todos esperavam, do dia em que se habitou finalmente a substância do tempo. A terceira parte, Entre Março e Abril há uma janela, é um espelho dos terríveis tempos em que vivemos, tempos em que se dão tantos passos atrás que já nem é possível contá-los, tempos em que Março se encontra sempre ao virar da esquina.