"Contos Acrónicos é autobiográfico, biográfico, fragmentário e, por vezes, muito ambíguo. Se por ali aparece síntese, é obra irregular, coberta de lacunas e de omissões deliberadas. E outras também não o são… Mas Lamas exagera por regra. Carrega na cor e na forma. E é possuído às vezes por alguma raiva simples, radial. (…)"
Manuel Lamas leu por alto o périplo do navegador.
Fora primeiro-tenente na Carreira das Índias. Transportava escravos da Guiné para o Pará, Baía e Maranhão. Carregara degredados do Reino, bordejando as costas do Malabar até Goa. Naturalmente, um dia fora promovido.
Já ao comando do seu navio, o «Príncipe do Brazil», da Companhia de Pernambuco, Vito Jozé de Mello descreve no diário de bordo - sem drama mas com muita ciência - o teatro de um naufrágio: «Faz menção no dia 22 de Março de 1799 de ter visto pelas cinco horas e meia uma embarcação desarvorada aproada para o Norte, sem mudar de situação apesar de fazer algum vagalhão alto de Noroeste, donde conjecturou que estava encalhada em algum baixio. Pelas seis horas e um quarto arbitrou a distância de dois terços de légoa e determinou a sua posição, que achou latitude 43º 45' 47'' Norte e longitude 328º 32' 4'' contada a partir do Ferro». «Que raio de longitude é esta?!», interrogou-se Lamas.
in «No mar das Flores»