«Notável de subtileza, Ângela de Almeida avança no mundo literário português desocultando-se para melhor se ocultar, através de uma estética, uma ética, uma poética inigualáveis. Dotada de recursos invulgares, que a inteligência, a vivência sublinham, ela cria espaços próprios para si e para a sua obra, logrando uma afirmação de escrita, de imaginário incomuns.
Este seu último livro, Caligrafia dos Pássaros contem alguns dos melhores poemas surgidos ultimamente entre nós. Percorrendo-o, encontramos iluminações singularíssimas, como no Ciclo das Horas, onde um notável poema se torna cantata de infinita perturbação.
"Passa uma mulher abraçada a uma janela/ mais um homem com o telhado aos ombros/ passa um circo sem palhaço/ e também uma roda/ passa a última carruagem/ de um comboio alucinado (…)"
Ângela de Almeida é um ser que sabe encontrar caminhos, afirmar-se diferente, solidária, sensível; que tem na persistência, na disponibilidade mapas sem recuo.
Ninguém surge, sabe-se, do nada. Não podemos esquecer que a poesia é, juntamente com a crónica, o grande pilar da literatura portuguesa.
Ângela de Almeida faz parte da plêiade dos seus criadores, que resistem, escrevem, publicam.
Detentora de excepcional domínio da palavra, ela retém imagens, ideias, sentimentos que comunica devagar, em cumplicidades suspensas.
Concisa, contida, a sua obra tornou-a uma autora de referência na nossa cultura».
Fernando Dacosta