Assim Lhes Fazemos a Guerra

de Joseph Andras; Tradução: Luís Leitão 

Bertrand.pt - Assim Lhes Fazemos a Guerra
Opinião dos leitores
(2)
Editor: Antígona
Edição: abril de 2022
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Tríptico «dedicado aos rebeldes, aos desertores, aos sabotadores e aos pacifistas», no qual se cruzam tempos e causas — a feminista, a animal e a social —, Assim Lhes Fazemos a Guerra (2021) conta-nos o destino de um cão em Londres, em 1903, de um macaco na Califórnia, em 1985, e de uma vaca e da sua cria nas Ardenas em 2014. Todos eles vítimas da violência da sociedade e do Estado, imposta pelo avanço técnico e científico, e pela exploração desenfreada da natureza.

Três contos, entre tantos, sobre vidas que tiramos em nome do progresso, e que revelam a bestialidade de alguns e a indiferença de muitos. Três histórias reais que, nas palavras belas, porém fortes e aceradas, de Joseph Andras, nos convidam a encarar a ideologia e a estrutura social que sustentam o domínio do homem branco não só sobre os animais - seres sencientes, companheiros e habitantes do nosso mundo -, mas também sobre as mulheres e as minorias.

Ilustração da capa de Gonçalo Duarte.

  • Assim lhes fazemos a guerra
    Paula Campos | 05-03-2026

    ‘Assim Lhes Fazemos a Guerra’ é um livro que não conta apenas uma história, desmorona convicções e indiferenças. Este tríptico reúne três contos inspirados em casos reais que atravessam mais de um século e três geografias distintas: o caso do cão castanho na Grã-Bretanha do início do século XX; a invasão de um laboratório de experimentação animal da Universidade da Califórnia em Riverside em 1985 e o abate de uma vaca fugitiva em Charleville-Mézières em 2014. Três momentos em que a violência exercida sobre três animais é exposta na sua crueza ética. Para além da denúncia da crueldade, o livro ilumina aqueles que a enfrentam: rebeldes, desertores, sabotadores e pacifistas, tal como são referidos na dedicatória. O que considerei mais impactante foi o estilo. Andras escreve num presente que antecipa o futuro e regressa ao passado com uma naturalidade que desarma o leitor. Há constantes desvios narrativos que ancoram os episódios no seu contexto histórico, político e cultural. «Então, em 15 de Setembro de 1906, um sábado, enquanto em França um presidente honra com a sua presença a terceira exposição do seu Império [...]». Mas também o anúncio do destino futuro das personagens, efeito de fatalidade e reflexão: «O cabecilha tem vinte anos, um paizinho ao leme de uma empresa e um destino promissor: na década seguinte, uma granada de morteiro ceifá-lo-á em Itália.» Repetições subtis marcam a passagem do tempo: «Então o verão estende-se sobre o reino […]». Ainda a ancoragem ancora firme de cada episódio no seu tempo, em referências culturais e literárias como Charles Dickens, Mark Twain e George Bernard Shaw. No terceiro painel, a evocação de Arthur Rimbaud, natural de Charleville, é símbolo de fuga, de recusa do destino imposto, de rebelião contra o mundo estabelecido. As frases são tensas, contidas, compostas por associações que se interligam quase invisivelmente. A economia verbal não permite o sentimentalismo nem o espetáculo da dor. Um olhar firme e lúcido expõe a crueldade, não a exibe. Naturalmente, há um dilema que atravessa o livro: a experimentação animal ¿¿¿¿¿¿ o progresso científico e médico. «Fazer o mal para tratar o mal.» É impensável infligir sofrimento a um ser vivo; mas sem experimentação animal, teriam sido possíveis tantos avanços médicos? Quantas vidas humanas foram salvas à custa de vidas não humanas? O livro não confunde a defesa do tratamento humano dos animais com militância alimentar. Não é preciso ser vegetariano ou vegano para reconhecer a brutalidade de certas práticas. Andras não converte; inquieta. Ao referir «três milhões de almas todos os dias no matadouro», o autor humaniza deliberadamente os animais, aproximando-os semanticamente do universo humano. Também Joseph Andras é um símbolo de resistência por ter recusado o Prix Goncourt em 2016 e o Prix Maya, por evitar a exposição pública e escrever sob pseudónimo, à margem da máquina da literatura. ‘Assim Lhes Fazemos a Guerra’ reflete sobre o quanto, ou quão pouco, evoluímos no último século. De laboratórios a tribunais e matadouros, perguntamo-nos se o progresso tem forçosamente de exigir sofrimento. «[...] a morte é-o sem dúvida um pouco menos quando os vivos a contam.» Escrever para que a violência deixe de ser invisível. Uma leitura obrigatória. Uma reflexão urgente.

  • Um livro duro para quem ama os animais
    Raquel Coelho | 18-02-2026

    Três atos com o mesmo fundo, a forma como usamos os animais e em sentido lato todos aqueles que achamos inferiores. Profundamente tocante, em vários sentidos.

Assim Lhes Fazemos a Guerra
ISBN:
9789726084136
Ano de edição:
04-2022
Editor:
Antígona
Idioma:
Português
Dimensões:
134 x 212 x 8 mm
Encadernação:
Capa mole
Páginas:
112
Tipo de Produto:
Livro
Classificação Temática:
EAN:
9789726084136

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