Uma televisão de todos e para todos está longe de ser uma realidade, quando a nossa referência é a informação semanal da RTP1, da SIC e da TVI. Olhando os 'plateaux' informativos, não se descobrirá o retrato do país que somos. Antes se vê aí desenhado um mapa social que salienta as elites que a TV absorve e reforça. Torna-se, assim, difícil encarar o pequeno ecrã como "espelho do quotidiano".
Este livro centra-se na programação informativa emitida nos canais generalistas portugueses entre 1993 e 2005. Nesse período, promoveu-se preferencialmente uma discussão política que incluiu sobretudo as elites políticas, as mais bem treinadas na arte de colocar o poder em cena, as mais capazes para representar uma dramaturgia democrática, as mais habituadas a conciliar um discurso persuasivo com as exigências mediáticas. Se quem fala na TV são as elites, elas perpetuam-se no poder de acordo com a capacidade de circulação no espaço público televisivo.
Nem todos podem participar em programas de informação televisiva. Quem é incapaz de adaptar o seu discurso aos códigos televisivos não pode falar em televisão; quem é desconhecido da opinião pública está também excluído, a menos que protagonize um acontecimento de grande amplitude; quem não pertence a instituições centrais onde se exerce o poder político tem igualmente poucas hipóteses de ser convidado. Foi isso que aconteceu entre 1993 e 2005. Consequentemente, construiu-se no espaço televisivo uma enorme espiral de silêncio que se foi avolumando ao longo dos anos.
Prefácio de Manuel Pinto (Coordenador do projecto Mediascópio e director do CECS - Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho)