"Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso. Estava deitado de costas, sentia a carapaça dura e, ao elevar um pouco a cabeça, via a barriga arredondada, de cor castanha, dividida em faixas rígidas arqueadas, e no alto dela a coberta da cama em equilíbrio instável, quase a resvalar. As muitas pernas, penosamente finas em comparação com a actual corpulência, tremiam diante dos seus olhos perplexos. "Mas, o que é que me aconteceu?"
O seu estilo inédito e inovador na época, original e surpreendente transitava com grande talento entre o fantástico e a realidade, motivando o leitor a penetrar na surpresa, numa sucessiva e dicotómica experiência de leitura.
A forma como Franz Kafka inicia esta obra confirma a naturalidade com que banaliza um quotidiano visitando em simultâneo o fantástico.
A Metamorfose é uma engenhosa, inteligente e imaginativa prosa.
O prefácio (estudo introdutório) de João Barrento - também autor da tradução - previne e informa que "Kafka afinal, era alguém, andava de bicicleta e motocicleta, remava no rio, jogava ténis na Ilha Sofia e, quem diria, montava bem a cavalo - o Grand-Hippodrom, onde aprendeu, ficava mesmo ao lado do jornal Prager Tagblatt, onde pontificava o amigo Max Brod, futuro testamenteiro editor da sua obra, e centro do mais importante círculo literário checo dos começos do século, o «Círculo de Praga» do Café Milena, do qual Kafka haveria de tornar-se o autor mais universal.